Há pensamentos que rasgam e palavras que cortam. Às vezes nem é preciso pensar nem ler. Basta supor. A mutilação acontece sem que as lâminas tenham sido postas à mesa. O importante é ver sangrar até o fim.
Chegar a uma cidade estranha é um ato precedido de rituais de pensar e escrever, escrever no pensamento e supor algumas vezes.
O primeiro ritual é erguer um muro de proteção ao seu redor. Tornar-se hostil e evitar qualquer envolvimento. Depois, basta evitar amigos e conhecidos, apenas ter colegas. Por fim, arrebata-se o muro cada vez mais alto, aos poucos: a proteção e a infelicidade estarão plenamente satisfeitas em sua ânsia de fazer um mal parecer um bem. Sem amigos nos quais confiar, a muralha protege um terreno estéril, já que dentro não chove, não faz sol e nada mais brota, porque as sementes não chegam. Uma gota que cai ou uma dor que se cante passam a significar o mesmo terreno seco. Não há testemunhas com quem simpatizar. Não é porque nos acostumamos a pensar que uma coisa não é errada que ela é necessariamente certa, já diria Paine. Com a muralha é assim. Nem boa nem ruim, é bom pensar.
O segundo ritual, logo após a derrubada do muro, que acontece após muito se contorcer diante da grandeza da auto-destruição, é o da abertura franca. Grandes laços são construídos, forma-se uma teia irresistível de elogios mútuos, companheirismo, camaradagem e traição. A mão que afaga é a mesma que arremessa para o infinito as nossas confianças. Então forma-se a necessidade do isolamento, que não pode ser o muro, porque inútil, nem a abertura, dolorida abertura.
O terceiro ritual é o da integração do muro com a abertura. Mas sobre esse não tenho nada a falar nem supor. É apenas um pensamento que me rasga e palavras que, escritas, me fazem sangrar os dedos.
Chegar a uma cidade estranha é um ato precedido de rituais de pensar e escrever, escrever no pensamento e supor algumas vezes.
O primeiro ritual é erguer um muro de proteção ao seu redor. Tornar-se hostil e evitar qualquer envolvimento. Depois, basta evitar amigos e conhecidos, apenas ter colegas. Por fim, arrebata-se o muro cada vez mais alto, aos poucos: a proteção e a infelicidade estarão plenamente satisfeitas em sua ânsia de fazer um mal parecer um bem. Sem amigos nos quais confiar, a muralha protege um terreno estéril, já que dentro não chove, não faz sol e nada mais brota, porque as sementes não chegam. Uma gota que cai ou uma dor que se cante passam a significar o mesmo terreno seco. Não há testemunhas com quem simpatizar. Não é porque nos acostumamos a pensar que uma coisa não é errada que ela é necessariamente certa, já diria Paine. Com a muralha é assim. Nem boa nem ruim, é bom pensar.
O segundo ritual, logo após a derrubada do muro, que acontece após muito se contorcer diante da grandeza da auto-destruição, é o da abertura franca. Grandes laços são construídos, forma-se uma teia irresistível de elogios mútuos, companheirismo, camaradagem e traição. A mão que afaga é a mesma que arremessa para o infinito as nossas confianças. Então forma-se a necessidade do isolamento, que não pode ser o muro, porque inútil, nem a abertura, dolorida abertura.
O terceiro ritual é o da integração do muro com a abertura. Mas sobre esse não tenho nada a falar nem supor. É apenas um pensamento que me rasga e palavras que, escritas, me fazem sangrar os dedos.


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